quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

● Arquitetura de Uma Vida.

Oscar Niemeyer: Um Brasileiro!

Ao ler a VEJA desta semana vi muita coisa interessante, duas me chamaram a atenção: o relato da sessão memorável de como o governo sofreu sua primeira derrota política em cinco anos, onde o Senado negou ao Executivo a recriação do imposto do cheque, nos livrando, assim, de um tributo que, no desespero do Planalto foi apontado como se fosse um “fiscalizador” de outros tributos; um absurdo, um tributo para fiscalizar outros, isto não existe em lugar nenhum, nem na Mongólia. O processo, neste caso, teve uma legitimação há muito tempo não vista em nosso país. A instituição ganhou ares de seriedade, não só pelo resultado, mas pelos discursos coerentes e embasados de ambos os lados: situação e oposição. Outro fato, também digno de nota, foi o ensaio despretensioso, porém, certeiro, de Roberto Pompeu de Toledo, sobre um dos nossos ícones na arquitetura, Oscar Niemeyer.

Oscar Niemeyer é uma verdadeira aula de História. No dia 15 passado, ele fez 100 anos. Um século em que o mundo, de fato, aconteceu, em várias vertentes: arte, literatura, política, economia, medicina, esportes, tecnologia... guerras mundiais. O automóvel, o avião, as viagens espaciais nos encurtaram distâncias, o homem pisou em solo lunar, a mulher se libertou de estereótipos e estigmas machistas e ascendeu como voz decisiva e imponente - deu xeque-mate na arrogância do sexo masculino -, os impérios colonialistas findaram, sofremos com a bomba atômica, internacionalizou-se a tecnologia, a Internet foi de supérfluo a necessário, a informação ganhou velocidade e a globalização nos linka a tudo e a todos.

Niemeyer viu nascer e morrer a união Soviética. Viu passar 23 presidentes do Brasil, 18 americanos e nove papas. Quando nasceu ainda viviam Machado de Assis e Euclides da Cunha. Em 1907 éramos uma República de pouco mais de 18 anos, a abolição da escravatura cerca de dezenove, portanto, ainda tínhamos resquícios e vícios da monarquia, tínhamos o racismo gritante contra os nossos negros alforriados. Niemeyer viveu bem mais que os 67 anos da monarquia brasileira.

No ano que nasceu, os nomes que viriam a fazer o século XX estavam por nascer, ou nascendo, ou eram pirralhos, ou eram maduros e já estavam fazendo das suas. Hitler tinha 18 anos e deixava Linz para se inscrever em Viena, na escola de Belas-Artes. Stalin estava com 28 anos. Lenin estava no exílio sem nem pensar que seria peça importante na Revolução Russa, que aconteceria somente dez anos depois e, com ela, o surgimento do Leninismo. Marcel Proust ainda iria publicar o “No Caminho de Swann”. Em 1907 nascia o cubismo. Freud, então com 50 anos, ainda viria a fundar a Sociedade de Psicanálise de Viena. Carlos Drumond de Andrade, Juscelino Kubitschek eram chorões de cinco anos de idade, Luís Carlos Prestes estava a 18 anos de liderar a Coluna Prestes. Getúlio Vargas era orador de sua turma de Direito. Ele, Oscar, é mais velho que Guimarães Rosa, Jorge Amado, Vinícius de Moraes, Jânio Quadros, João Goulart, Carmem Miranda, Noel Rosa e muitos outros ícones que fizeram o Brasil e o mundo serem o que conhecemos hoje.

Viu o atleta do século bater uma pelota, viu o país das chuteiras ganhar todos os seus troféus em copas mundiais. Quando nasceu, não existiam o Flamengo e o Vasco. Ao lado de Lúcio Costa - urbanista, arquiteto - projetou Brasília, onde o poder político brasileiro desfila, legisla, delibera entre as paredes de obras projetadas por ele. Realmente, uma bibliografia viva!

É surpreendente, pois quando Niemeyer nasceu, tudo ainda estava por acontecer. É um dos protagonistas e verdadeira testemunha de nossa transformação em vários setores, uma pessoa-exemplo, de vida, de trabalho, de dedicação ao progresso, de humanismo. Ele faz parte de 0,001% da população de 187 milhões de brasileiros, ou seja, ele está no seleto grupo dos cerca de 18.000 centenários brasileiros. Desses velhinhos bacanas aí, nós homens perdemos feio, pois há mais tataravós que tataravôs, numa proporção de 3:1. Mas nosso Niemeyer está lá, nos representando, com a lucidez de um moço, com a sapiência da experiência, com saúde mental e disposição ao trabalho, mesmo sabendo que muito de suas obras, que ainda estão em projetos, plantas baixas e cálculos, seus olhos não verão serem edificados.

Niemeyer não só viu o mundo acontecer, mas também fez a sua parte, nos apresentou sua arte, brincou com o concreto armado, curvas e sinuosidades, nos brindou com o seu talento. Foi criador e construtor, literalmente.

Fico feliz em ver parte dessa história, em assistir, ainda em vida, um homem brilhante fazer jus a sua existência. Dentre outras coisas, boas e ruins, vimos a volta da democracia brasileira, a queda de Collor, a ascenção de Lula, e a CPMF nascer e morrer, sem deixar saudades. Quem disse que não temos ídolos? Este não é de barro, não, é carne e osso, coração, talento, é brasileiro e não desiste nunca!

Memorável, também, será desejar “Feliz Ano Novo” a este senhor, mas, sem dúvidas, inesquecível mesmo e que soará como uma benção, é ouvir dele um sonoro: “Próspero Ano Novo pra você também”. Deve ser especial receber este mimo, pois ele, obviamente, entende muito bem disto, pois viveu venturosos 100 anos. Não é tarefa fácil viver tanto e produzir uma vida de sucessos.





Parabéns, tataravô Oscar! Feliz 2008!







*
Clique nas imagens para ampliá-las. A penúltima foto - MAC -, por exemplo, vale o clique.

Leitura complementar, sobre a vida de Oscar Niemeyer: gostei do que li no blog Verdes Verdades, clique aqui.

*

Agradecimento...

Muito obrigado pelas manifestações de "Boas Festas!" O Natal foi dez! O Réveillon promete!

*
Abraço...

Para uma pessoa que parece ser brabinha e quer se fazer de má, mas é uma excelente espécie - afável, inclusive -, o meu fraterno abraço e a disposição pra nos entendermos melhor nessa lida. Prometo não contar a ninguém que você é pessoa educada, sabe ouvir, sabe se comunicar sem exageros, é explosiva, porém, sensível e delicada, é de dizer na lata, contudo, inteligente e lúcida pra sacar os erros, é teimosa, eu sei, mas um dia eu invado seu coração e não saio mais. Um beijo pra ti!

0 comentários:

Postar um comentário

Ah, navegante, você sabe as regras de conduta. Não envergonhe Voltaire e faça sua parte. Eu, certamente, farei a minha: deletarei os comentários tolos ou ofensivos a quem quer que seja (comentaristas ou blogueiros). Meta pau nos que venderam a alma pro Boninho.

Contato com Citizen Kane E-mail: sociedadebbb@bol.com.br
.